Ilustração dividida contrastando a visão de classe social de Karl Marx e de Pierre Bourdieu

A teoria das classes de Bourdieu x Marx: Dinheiro explica a desigualdade?

A principal diferença entre Pierre Bourdieu e Karl Marx está na forma como cada um define classe social.

Karl Marx foi um filósofo alemão do século XIX. Para ele, a classe depende da relação da pessoa com os meios de produção. De um lado fica quem é dono de fábrica, terra e capital. Do outro, quem só tem a própria força de trabalho para vender.

Pierre Bourdieu foi um sociólogo francês do século XX. Para ele, a classe depende de vários tipos de capital, e não só do dinheiro. Entra aí também o capital cultural, o social e o simbólico.

Em poucas palavras, Marx enxerga a classe pela economia. Bourdieu amplia esse olhar. Ele inclui a cultura, a educação e o prestígio.

É por isso que, para Bourdieu, você pode ser rico de dinheiro e pobre de repertório cultural ao mesmo tempo.

A escolha entre uma lente e outra muda a resposta para uma pergunta bem atual. A desigualdade se explica só pelo dinheiro?

Quem foram Karl Marx e Pierre Bourdieu

Karl Marx e Pierre Bourdieu estudaram a desigualdade entre as classes. Mas viveram em tempos e lugares diferentes.

Karl Marx (1818 a 1883) foi um filósofo alemão. Ele viveu o auge do capitalismo industrial. Ao lado de Friedrich Engels, escreveu o Manifesto Comunista, de 1848. Também escreveu O Capital, cujo primeiro volume saiu em 1867.

O foco dele era a economia. Marx olhava para o conflito entre quem é dono dos meios de produção e quem trabalha para esses donos.

Pierre Bourdieu (1930 a 2002) foi um sociólogo francês. Ele viveu mais de um século depois de Marx. Estudou cultura, gosto e educação.

As obras dele mais citadas sobre classe são duas. A Reprodução, de 1970, escrita com Jean-Claude Passeron. E A Distinção, de 1979.

Em vez de olhar só para a economia, Bourdieu quis entender outra coisa. Ele quis saber como a cultura e a escola também separam as pessoas em classes.

Como Karl Marx define classe social

Para Karl Marx, a classe social nasce da relação da pessoa com os meios de produção. Meios de produção são as fábricas, as máquinas, a terra e o dinheiro usados para gerar riqueza. Quem é dono deles forma uma classe. Quem não é dono forma outra.

Marx dividiu a sociedade capitalista em dois grupos principais. A burguesia é a dona dos meios de produção. O proletariado é o resto. São as pessoas que não têm propriedade e vendem a própria força de trabalho por um salário.

Nessa relação existe o que Marx chamou de mais-valia. É a diferença entre o valor que o trabalhador produz e o salário que ele recebe. Essa diferença fica com o dono do negócio. É daí que Marx tira a ideia de exploração.

Para Marx, as classes vivem em conflito, porque os interesses são opostos. Ele chamou isso de luta de classes. Às vezes os trabalhadores percebem que formam um grupo com interesses comuns. Aí surge a consciência de classe. A classe, em Marx, é um grupo real. Ela pode se organizar e agir na história.

Como Pierre Bourdieu define classe social

Para Pierre Bourdieu, a classe social não se define só pelo dinheiro. Ela depende do volume e da estrutura dos vários tipos de capital que a pessoa acumula. Capital, aqui, é qualquer recurso que dá vantagem na vida em sociedade.

Bourdieu trabalhou com quatro tipos de capital:

  • Capital econômico: dinheiro, bens e propriedades.
  • Capital cultural: repertório, diplomas, leitura e intimidade com a arte e com a chamada cultura legítima.
  • Capital social: a rede de contatos e relações que a pessoa pode acionar.
  • Capital simbólico: o prestígio e o reconhecimento que os outros atribuem a ela.

Duas pessoas podem ter o mesmo salário. Mesmo assim, ocupam posições sociais diferentes, porque reúnem capitais diferentes.

É nesse ponto que Bourdieu se afasta de Marx. Boa parte dessa vantagem vem do capital cultural que a família e a escola transmitem. É um conhecimento que se herda quase sem perceber.

Bourdieu não via só duas classes em bloco. Ele descreve um espaço social.

Cada pessoa ocupa uma posição nesse espaço. A posição depende de quanto capital ela tem, ou seja, o volume. E depende do tipo de capital que pesa mais no caso dela, ou seja, a estrutura.

A trajetória também conta. Importa se a família vem subindo ou descendo ao longo do tempo. Bourdieu deu um nome às disposições internas ligadas a essa posição. Ele as chamou de habitus, o jeito de agir e de gostar que cada classe passa adiante.

Citação de Pierre Bourdieu
Para Bourdieu, dinheiro é capital econômico; diplomas, repertório e modos de falar formam o capital cultural.

Marx x Bourdieu, lado a lado

A tabela abaixo resume onde Karl Marx e Pierre Bourdieu se separam, critério por critério.

CritérioKarl MarxPierre Bourdieu
O que define a classeRelação com os meios de produçãoVolume e estrutura dos capitais
Dimensões consideradasUma (econômica)Várias (econômica, cultural, social e simbólica)
Como a desigualdade se mantémExploração econômica e ideologiaReprodução cultural, escola e violência simbólica
O que é “classe”Grupo real em luta (luta de classes)Posição no espaço social (classes “no papel”)
Conceitos-chaveMais-valia, meios de produção, consciência de classeHabitus, capital, campo
Obras de referênciaO Capital, Manifesto ComunistaA Distinção, A Reprodução

Um exemplo que mostra a diferença: o professor e o empresário

Um exemplo deixa a diferença entre Marx e Bourdieu fácil de enxergar. Vamos imaginar duas pessoas. A primeira é um professor de universidade. Ele tem salário modesto, mas muitos diplomas, muita leitura e trânsito fácil em museus e debates. A segunda é um empresário. Ele ganha muito dinheiro, mas quase não teve contato com arte, livros ou estudo formal.

Pela lente de Karl Marx, o que classifica os dois é a posição na economia. O empresário é dono do próprio negócio, por isso está mais perto da burguesia. O professor vende a própria força de trabalho por um salário e por isso está mais perto do proletariado, por mais instruído que seja.

Pela lente de Pierre Bourdieu, a conta muda. Os dois têm capitais diferentes, não só valores diferentes no banco.

O empresário tem muito capital econômico e pouco capital cultural. O professor tem o contrário. Eles ocupam posições distantes no espaço social, mesmo que um dia se cruzem na mesma festa.

É aqui que aparece a frase que resume Bourdieu. Você pode ser rico de dinheiro e pobre de cultura. E o contrário também vale. Para Marx, essa distinção importa menos. O que pesa mesmo é quem controla os meios de produção.

Diagrama comparando o modelo de classes em eixo único de Karl Marx com o espaço social de dois eixos de Pierre Bourdieu
Comparação entre as teorias de classe de Karl Marx e Pierre Bourdieu: Marx distingue burguesia e proletariado pela relação com os meios de produção; Bourdieu considera o volume e a composição dos capitais econômico, cultural, social e simbólico.

O que Bourdieu acrescenta à leitura de Marx

Bourdieu não jogou Marx fora. Ele acrescentou camadas que Marx tinha deixado em segundo plano. A análise de Marx era centrada na economia. São quatro acréscimos principais.

  1. O capital cultural. Repertório, diplomas e intimidade com a “cultura legítima” também são uma forma de riqueza. Isso vale mesmo quando há pouco dinheiro.
  2. O capital simbólico. Prestígio e reconhecimento funcionam como recurso. Um sobrenome respeitado ou um título abrem portas que o salário sozinho não abriria.
  3. A violência simbólica. É a dominação que a própria pessoa dominada aceita como natural. Um exemplo é quem se convence de que “não leva jeito para o estudo”. Na verdade, essa pessoa só não herdou o mesmo capital cultural dos colegas.
  4. A escola como peça da reprodução. A escola muitas vezes confirma a desigualdade em vez de corrigir. Ela premia quem já chega de casa com mais capital cultural.

Para Bourdieu, o gosto funciona como um marcador de classe. Isso também aparece no estudo do consumo cultural em larga escala, tema da sociedade de massas.

Bourdieu rompeu com Marx ou completou?

Bourdieu não rompeu com Karl Marx. Mas também não foi um seguidor fiel. A leitura mais aceita é que ele completou Marx. Ele acrescentou a dimensão cultural e simbólica que faltava, combinando isso com ideias do sociólogo alemão Max Weber.

De Karl Marx, Bourdieu manteve uma ideia central: a sociedade é dividida e marcada por relações de dominação.

De Max Weber, ele aproveitou outra coisa. Weber dava atenção ao prestígio, ao estilo de vida e ao reconhecimento, que não se explicam só pela economia.

Há ainda uma diferença fina sobre o que é uma classe. Para Marx, a classe é um grupo real. Ela pode ganhar consciência e se mobilizar.

Para Bourdieu, as classes são “no papel”. São agrupamentos de pessoas com posições parecidas no espaço social. Elas podem até agir juntas, mas isso não é garantido. É mais um mapa das posições do que um exército pronto para a luta.

O que é capital para Karl Marx e para Pierre Bourdieu?

A palavra capital tem sentidos diferentes em Karl Marx e em Pierre Bourdieu. Essa é uma das confusões mais comuns.

Para Marx, capital é quase só econômico. É a riqueza usada para gerar mais riqueza à custa do trabalho, como o dinheiro posto numa fábrica.

Já para Bourdieu, capital é qualquer recurso que dá vantagem num campo social. Por isso ele fala em capital econômico, cultural, social e simbólico.

A mesma palavra é estreita em Marx e ampla em Bourdieu.

Bourdieu era marxista?

Bourdieu não era marxista no sentido estrito. Ele usava conceitos de Karl Marx, como dominação e classe. Mas também usava Max Weber e outros autores.

Ele não se filiava a nenhuma corrente fechada. Bourdieu resistia a rótulos teóricos. Preferia que as ideias dele fossem julgadas pela pesquisa concreta, não pela etiqueta.

Por que a diferença entre Marx e Bourdieu importa no debate do mérito

A diferença entre Marx e Bourdieu aparece com força no debate atual sobre mérito. A ideia de meritocracia diz que cada um chega aonde chega pelo próprio esforço. Bourdieu ajuda a desconfiar dessa conta.

A escola e os concursos cobram um repertório cultural. Mas nem toda família transmite esse repertório. Quem cresceu cercado de livros, viagens e conversa sobre arte larga na frente.

O esforço individual continua importando. Só que ele não explica tudo, porque o ponto de partida é desigual.

Karl Marx explica a parte econômica dessa desigualdade, ligada a quem tem patrimônio e quem não tem.

Pierre Bourdieu explica a parte cultural. Ela passa de pais para filhos e costuma se disfarçar de talento ou dom natural.

No Brasil, dois órgãos oficiais medem essa distância na educação: o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Os dados deles mostram que o acesso à educação ainda é desigual. Isso dá base concreta ao argumento de Bourdieu.

Marx e Bourdieu como lentes que se completam

Karl Marx e Pierre Bourdieu não precisam ser tratados como adversários. São duas lentes. Juntas, elas enxergam mais.

Marx mostra como a economia organiza as classes. Bourdieu acrescenta a cultura, a educação e o prestígio, que fazem um trabalho parecido por outros caminhos.

Usar as duas ao mesmo tempo dá uma imagem mais completa da desigualdade do que escolher uma só.

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